A Contagem Crescente

Ou como tudo começa não aos zero mas aos nove meses, depois de sair da barriga da mãe

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terça-feira, abril 05, 2005

A vida

Se o meu bisavô (avô da minha mãe) fosse vivo, faria hoje 82 anos. Mas, infelizmente, nem sequer chegou a saber que eu existia. Ou iria existir dali a algum tempo. Quando ele morreu, eu nem dois meses tinha na barriga da minha mãe. Não se notava, ninguém sabia. Só os meus pais e eu sabiamos que eu já cá andava. Estávamos os 3 lá longe, do outro lado do Oceano e só soubemos a notícia depois. Lá dentro bem no fundo, a minha mãe já sabia mas preferia não pensar nisso. O final das férias já não estava assim a correr muito bem com tanto enjoo por minha causa que se os meus avós lhe tivessem contado a verdade, então é que não iriam correr nada bem. A minha mãe ainda hoje pensa que, se calhar, quem sabe, se ele tivesse sabido de mim, teria tido mais força para aguentar só mais um bocadinho...

Tenho só uma bisavó (avó do meu pai), que tem 82 anos. Vive longe daqui, ainda só a vi duas vezes mas era tão pequenina que mal abri os olhos para a ver bem. Agora que já sou mais crescida e me aguento mais tempo acordada e até já palro muito, tenho de a ver outra vez, qualquer dia vou visitá-la à terra dela porque ela também já está velhota para andar muito. Pelo menos conheço todos os meus avós e recebo mimos de todos. Já os meus pais não tiveram essa sorte, alguns dos avós deles morreram antes deles nascerem.

É estranha esta coisa da morte, eu ainda não percebo muito bem isso. E sei que sou ainda pequena para daqui a uns anos me lembrar do que está a acontecer agora. Por isso os meus pais não vão deixar de me contar tudo o que se passou antes de eu nascer e vão mostrar-me muitas fotografias da família toda que eu não chegar a conhecer. Tenho a certeza que eu ia gostar muito de todos e que todos iam gostar muito de mim. mas como já tenho ouvido algumas pessoas dizer, é a vida...

1 Comments:

  • At 3:12 p.m., Blogger Carolina said…

    Não resisti. Ao ler e tua mensagem pensei "Conheço alguém que vai chorar de emoção quando ler isto". Depois "naveguei" pelas várias páginas e pensei "Bolas, não percebo mesmo nada disto, A contagem decrescente, A contagem crescente e por aí fora...devem ser óptimas recordações. Também eu me emocionei ao ver descrito o dia a dia de uma grávida e de uns pais super felizes. Talvez por também estar a passar pela mesma fase e porque há 5 anos vivi (e vivo) exactamente isto, os melhores e mais felizes momentos das nossas vidas. Os nossos filhos passam a ser aquilo em que nos agarramos para respirar e passamos a sentir que, sem eles não temos ar para viver. São sem dúvida uma parte de nós, um braço ou uma perna sem o qual não queremos viver. Não deixo de dar todos os dias montes de beijos à minha filhota mas o melhor de tudo é quando ela retribui com um abraço ou uma simples frase "mãe amo-te". Hoje é um dia especial. Também me lembrei do bisavô quando me levantei de manhã e pensei que, se fosse vivo faria hoje anos. Mas a vida tem destas coisas que a Filipa um dia mais tarde vai descobrir e infelizmente sofrer com elas. Depois de "navegar" por aqui pensei, porque é que depois das pessoas desaparecerem das nossas vidas é que pensamos que gostaríamos de ter passado mais tempo com elas. O stress do dia a dia infelizmente é desculpa para tudo e, quando damos conta, já a Filipa tem três meses e a Daniela está quase a nascer. Ó Filipa, fiquei com uma enorme vontade de te ver. Temos que combinar um lanche. Tenho a certeza que a Carolina vai adorar ver-te. As maiores felicidades para todos e continuem a distribuir amor uns pelos outros, vão ver que assim vão ser muito mais felizes.
    Beijos.

     

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